http://www.viagememcena.com/wp-content/uploads/2012/02/viagem-em-cena-logo.jpg

TailândiaRecebi com grande alegria esse conto da querida leitora Sonia Regina Rodrigues, que também tem um blog, o Viagens, relatos e dicas. No texto – O barqueiro – você pode conferir um pouco sobre como algumas viagens tem o poder de nos transformar.

Éramos duas turistas aventureiras em Koh Phi Phi, duas mulheres sozinhas em um país cuja língua não falávamos.

Neste arquipélago, ao criar o mundo, Deus deve ter hesitado. Ali deveria ter sido o paraíso original, e ali, certamente, Eva, ocupada a se divertir nas águas mornas cheias de peixinhos coloridos, teria mandado a serpente passear, em nada curiosa pelos frutos proibidos, mesmo porque por ali nascem frutas bem mais interessantes que maçãs. Talvez por isso o divino mestre guardasse este local para deleite das futuras gerações de netinhos do bíblico casal. Afinal, não tendo nada a ver com o pecado de nossos ancestrais, nada mais justos que nós nos deleitemos, quando o salário permite, em locais paradisíacos.
Bem, a população é outra coisa, e, a princípio, não me pareceu tão paradisíaca assim.Nosso barqueiro, por exemplo.

O tailandês era feio, magro, desdentado. Em São Paulo, eu atravessaria a rua para não cruzar com ele. No entanto, minha amiga insistiu no tal passeio de ‘bote de cauda’, praticamente uma casquinha, que por ser pequena, pode se aproximar de qualquer prainha, esgueirar-se por entre quaisquer recifes, e na qual teríamos a sensação dos navegantes primitivos a singrar os mares em busca de aventuras.

Minha amiga, já se vê, é escritora. Eu, que a acompanho em suas maluquices, desconfio ter propensão ao suicídio. E disse a ela, alegremente, que, se um tsunami nos surpreendesse ali, morreríamos sorrindo, e que, sendo todos nós condenados a morrer um dia, por que não escolher Kho Pee Pee como cenário?
Voltemos a nosso medonho barqueiro, que nem de longe desconfiava do pavor que me provocava seu desdentado sorriso. Ele ajeitou à sombra nossa água, e nos guiou oceano adentro em seu barquinho frágil, por ilhas paradisíacas.Saímos cedo, e, na maioria das baías e remansos, fomos as primeiras visitantes do dia, tendo a paisagem só para nós. Ele nos orientava aonde ir, onde mergulhar, onde aportar.

Eu, tensa, não parava de pensar que, se ele resolvesse nos matar e jogar nossos corpos ao mar, ninguém saberia. E em meu pensamento vinham histórias terríveis de turistas desaparecidos, assassinados pelos guias. Minha própria cidade, sendo turística, tinha uma crônica de assaltos capaz de alimentar os pesadelos mais estupendos, brutais, apavorantes. E eu ali, estressada, ao lado da minha felicíssima e relaxada amiga, que, em um remanso entre penhascos isolados, mergulhou entre um cardume de coloridos peixinhos, a procurar por Nemo.

O barqueiro, que me convidava em vão a descer do barco, cruzou os braços e olhou para o alto dos penhascos, onde, observei , havia milhares de ninhos de andorinhas. O sol parcialmente encoberto deixava uma parte da baía na sombra, e a outra parte, dourada. A água transparente permitia que se enxergasse cada detalhe das pedrinhas do fundo, que, naquele local, era pouco profundo, e azul como as águas dos atóis. Enquanto eu me indagava se estávamos sobre pedras ou corais, debrucei-me, relaxei, mergulhei as mãos na água, e, então, para meu terror, o barqueiro aproximou-se, acocorou-se diante de mim, olhou dentro de meus olhos e sorriu:

– Este mundo é tão lindo!

O tom com que ele disse esta simples frase foi tão inesperado que me desarmei.

– Eu venho aqui todos os dias – continuou ele – Todos os dias vejo este mundo bonito. Eu amo meu trabalho.
A alegria dele me contagiou e fiquei de repente muito tranquila, e pude sentir o silêncio por detrás do som do mar, do vento, do som dos pássaros.Eu me senti tão bela e pura como a paisagem ao redor, e cheia de ternura por ele, por minha amiga, e até mesmo desculpei-me pela tola pessoa que sou.
Este homem me ensinou a felicidade.

Viciada assumida em viagens. Turismóloga, especialista em Jornalismo Cultural e doutoranda em Comunicação. Em suas andanças, sempre busca conhecer as diversas culturas e se encantar com os mais belos cenários.

Facebook Twitter  

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Categories: Contos e crônicas