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Dentre as diversas hipérboles sobre viagens que circulam pelo Facebook e viram memes, algumas tem me deixado bastante incomodada por achar que elas sejam mais do que simples exageros comuns da internet, sendo, por vezes, pretensiosas mesmo. Quem nunca ouviu por aí que viajar te proporciona enriquecimento cultural, te ajuda a compreender melhor as diferenças, promove até mesmo o desenvolvimento intelectual? Longe de mim afirmar e defender que isso não aconteça. Acredito sim nestas afirmações e, inclusive, acho as viagens podem contribuir, e muito, para a formação das pessoas.

Morro de São Paulo - viajar

O ponto que eu gostaria de ressaltar é que para que essa transformação intelectual aconteça, é preciso que o viajante se permita aprender. Refletir sobre as particularidades de lugares que lhe são estranhos, a princípio, é importante para que possamos tolerar mais as diferenças e até mesmo entender melhor seu próprio entorno.

O problema é que canso de ver pessoas que viajam com frequência, que possuem um bom nível educacional formal, mas que parecem ignorar ou se blindar contra todas essas benesses. E são exatamente essas pessoas que mais compartilham e/ou produzem esses memes romantizados que não correspondem com a realidade.

No momento caótico e preocupante em que o país se encontra, essa discrepância se torna ainda mais visível. Exemplo disso são as diversas postagens de pessoas que já visitaram mais de vinte países, que “conhecem” praticamente o Brasil inteiro, e que esbanjam preconceitos contra os nordestinos, os mais pobres, os produtores culturais.

Como dizer que as viagens proporcionam aprendizado se a pessoa critica os artistas brasileiros que defendem o desenvolvimento de políticas públicas culturais acusando-os de oportunistas, mas acha o máximo a variada produção cultural dos países europeus? Como dizer que as viagens se convertem em enriquecimento cultural se a pessoa acha que o nordestino é o culpado da crise política brasileira por votar mal, mas ela mesma votou em um cara que rouba merenda de escola pública?

Além dessas questões, é também notável o comportamento totalmente inadequado de várias pessoas quando viajam. Muitas jogam lixo nas praias, descumprem as solicitações dos comissários no avião, desrespeitam os costumes locais. Sem nenhuma preocupação com a sustentabilidade ou com o bem-estar da população residente.

Viajar pode significar muito mais que simplesmente curtir os atrativos turísticos, ficar em hotéis bacanas e experimentar restaurantes transados. Embora todas essas ações sejam muito legais e também permitam o intercâmbio cultural, é verdadeiramente enriquecedora a experiência de se permitir aprender, se liberar de preconceitos e buscar refletir sobre os aspectos culturais dos lugares, sem se sentir superior ou inferior por pensar e ser diferente. Usemos as viagens a nosso favor, exploremos tudo o que elas podem nos oferecer, sem nos esquecermos do exercício fundamental que deve ser feito em todos os momentos de nossas vidas, o da empatia.

 

 

Viciada assumida em viagens. Turismóloga, especialista em Jornalismo Cultural e doutoranda em Comunicação. Em suas andanças, sempre busca conhecer as diversas culturas e se encantar com os mais belos cenários.

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Categories: Contos e crônicas