http://www.viagememcena.com/wp-content/uploads/2012/02/viagem-em-cena-logo.jpg

Conto sobre uma viagem à Florianópolis de Thaís Reis para o Viagem em cena.

Um dia, num passado muito remoto, vi-me presa ao mar… Em frente à areia separada pelas grades do quarto, pensei no verdadeiro sentido daquele momento, no que havia de mais especial naquele instante, único e reflexivo. Aos meus pensamentos vinham lembranças de um amor que na noite anterior eu perdera. Ao mesmo tempo, a música que vinha ao fundo, da televisão, remetia-me a romances futuros, que seriam tão fugidios quantos o do dia passado.

Era Réveillon. Decidimos comemorá-lo na linda Florianópolis; na Praia dos ingleses. Eu, a amiga Maiara e a prima Camilla, esta última a protagonista desta história. Decidira toda a viagem poucos dias antes. Conseguiu os dias de folga de que precisava no trabalho, reservou a pousada, comprou as passagens e mantinha-se, dia após dia, na retrospectiva que a levaria (que nos levaríamos) a comemorar, pela primeira vez, o Ano novo longe da nossa família (da nossa grande família) e numa boate: na Pachá de Jurerê (bairro nobre situado no norte de Santa Catarina).

Eu achava, no mínimo, estranha a ideia de passar o Réveillon num espaço cheio de gente indiferente que estava longe de serem meu colegas, menos ainda a minha tão querida família. Mas a Camilla estava animadíssima e tentava me convencer de que aquela seria a melhor virada de anos de nossas vidas. Concordei. Concordamos.

O dia, aliás, a noite do dia 31 era viva, as pessoas felizes… Os braços cruzavam-se, as bocas faziam planos para o novo ano que, segundo elas, seria surpreendente, cheio de conquistas e nenhuma decepção. Como podiam enganar-se tanto quando, na realidade, não se sabe nada, nem como tudo já se foi, nem como será? Enquanto criavam expectativas, sonhos infundados e verdades passageiras, o amor sumia. Não o meu, mas o da Camilla. Sim. Ele estava também na Pachá e ela já sabia de tudo… Os planos eram todos para os dois; o bater da meia-noite seria eternizado pelo casal, pelo amor que ela e somente ela sentia.

Antes da meia noite, ele fazia juras concretas, promessas incansáveis, oferecia beijos intermináveis. Ainda era o ano velho, perdido em cicatrizes, rugas e no apoio das bengalas que já não podiam mais suportar a ação do tempo. Ainda era velho, idoso, o ano que tanto a fizera esperar pelo novo, pelas surpresas dos primeiros momentos do ano par que acabara de se iniciar.

Os segundos marcados antes da meia-noite separavam o certo do duvidoso, o amor do rancor, o sonho do pesadelo. Separavam-na, para sempre, dele que, ao sentir e viver os primeiros instantes de 2010, afastara-se dela para nunca mais voltar. No momento do brinde, os olhos da Camilla estavam perdidos na multidão. Havia o que comemorar? Onde estaria ele naquele momento? Seria este um sinal de que o ano que se iniciava não reservava para eles uma continuidade do sentimento outrora gerado? Qual seria o primeiro passo a dar nos primeiros minutos do novo ano? E a noite que passariam juntos? E o nascer do sol que admirariam sentados na areia da praia? Ela via-se só… Eu também estava presa à minha solidão, à saudade da família e de um amor que partira meses antes, também para nunca mais voltar…

Observo a Camilla deitada na cama pensativa, inquieta e o seu amor motiva-me a escrever por ela, o que ela sentia e, em nenhum momento, conseguia dizer:

“Da janela deste quarto, as lembranças me preenchem, o concreto ficou para trás, preso ao amor ímpar, amarrado aos cantos do quarto, na cama macia do estado de São Paulo. Apenas lá tudo foi verdadeiro e findado, porque estava reservado para aquele espaço de tempo. Aqui é outro lugar, outro momento, outro ser… Aqui, dessa varanda fria, vê-se apenas o infinito marcado pela linha do horizonte, que tanto insiste em não se desfazer. Desse lugar, ninguém pode me ver, mas eu enxergo o mundo inteiro, porque o céu se une ao mar e o universo se fecha diante dos meus olhos.

Não há espaço para tentativas de planos para o novo ano, pois ele será exatamente como o anterior: certo e imprevisível, frio e quente, verdadeiro e falso, curto e eterno, e nele viverei intensamente até que o relógio marque novamente a meia-noite e ele volte a estar ao meu lado, preso a cada toque meu, a cada gesto e a cada maneira de dizer palavras certas para preencher o espaço vazio do meu coração.

Até lá, cada ação será um erro, cada promessa será facilmente burlada e todo encanto será desfeito, porque a verdade só aparecerá nos pequenos minutos que apresentarão a chegada da meia-noite, do Ano Novo.”   

Quero voltar a Floripa, sem planos, em outra data que não seja o Reveillon e sem as expectativas criadas pela Milla, porque talvez assim possamos não nos prender ao amor (sim, às vezes é preciso esquecê-lo) e conhecer os lugares que fazem essa cidade ser linda de verdade. Sem Pachá!


Viciada assumida em viagens. Turismóloga, especialista em Jornalismo Cultural e doutoranda em Comunicação. Em suas andanças, sempre busca conhecer as diversas culturas e se encantar com os mais belos cenários.

Facebook Twitter  

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Categories: Contos e crônicas